Fernando Pessoa transformado em HQ na obra “Eu, Fernando Pessoa”

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Eloar Guazzelli, nascido em 1962, é ilustrador e artista plástico. Consagrado no mundo dos quadrinhos, mantêm uma relação muito próxima com a literatura, perceptível nas obras que ele já ilustrou ou adaptou de escritores diversos como William Faulkner, Eça de Queiroz, J.M.G. Le Clézio e Lygia Fagundes Telles. No entanto, seu vínculo com o universo de Fernando Pessoa é o mais produtivo.

Em 2012, o gaúcho publicou o álbum “Fernando Pessoa e outras Pessoas” um projeto que apresentava as obras de Pessoa a um público mais jovem, também no formato de HQ. Neste ano, o lançamento do cartunista foi “Eu, Fernando Pessoa”, produzida em conjunto com a doutora e professora de Literatura Suzana Ventura. “Ela me deu a base, o alicerce e assim ficou mais fácil pensar no desenvolvimento estético da história”, afirma Guazzelli.

A HQ “Eu, Fernando Pessoa” é baseada em uma carta mandada pelo autor português ao seu amigo Adolfo Casais Monteiro, na qual ele explica o nascimento, a vida e até mesmo descreve fisicamente seus três principais heterônimos: Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos (e acaba também descrevendo seu semi-heterônimo Bernado Soares). Um dos trechos que explicam o surgimento deles é o seguinte:

“(…) Lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro — de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira — foi em 8 de Março de 1914 — acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. (…) Imediatamente e totalmente… Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou, melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.

Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir — instintiva e subconscientemente — uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos — a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.

Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes, e como eu não sou nada na matéria.

(…) O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual; (…)”

Guazelli ressalta que “foi uma verdadeira gangorra para não cair nas armadilhas criadas pelo desejo de traduzir em imagens a riqueza poética de Pessoa.” Para o gaúcho, traduzir o legado de um nome tão grande da Literatura portuguesa foi um exercício de autocontrole e equilíbrio quando era necessário utilizar a capacidade inventiva.

O resultado extremamente positivo dos livros, concedeu ao cartunista a liberdade e o encorajamento para a extrapolação dos seus limites artísticos, atualmente, Guazelli trabalha em um curta-metragem de animação sobre o poeta, que serve de base para “Eu, Fernando Pessoa”.

A HQ foi lançada no mês de junho de 2013, na Books Livraria, e já está disponível para compra nas maiores livrarias. O projeto faz parte de uma coleção chamada “Clássicos em HQ”, da Editora Peirópolis, que inclui também versões para quadrinhos de obras de autores como Camões, Cervantes, Machado de Assis, Dante, Gil Vicente, entre outros, e pode ser folheada neste link (http://issuu.com/editorapeiropolis/docs/pdf_issu_final/12.), disponibilizado também pelo site da editora.

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Publicado em 14 de novembro de 2013, em Manuscritos de Notícias e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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