Arquivo diário: 31 de outubro de 2013

15 frases de José Saramago

Em homenagem ao passamento do escritor português José Saramago, autor de Ensaio sobre a Cegueira e O Evangelho Segundo Jesus Cristo, coletamos algumas de suas pérolas.

charge1

O ateu que a Igreja lamentou a perda.

Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro.
José Saramago

Sobre a posse:

Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar.
José Saramago

Grandes analogias.

O espelho e os sonhos são coisas semelhantes, é como a imagem do homem diante de si próprio.
José Saramago

Tudo a seu tempo.

Não tenhamos pressa,mas não percamos tempo.
José Saramago

Experiência acumulada.

Aprender com a experiência dos outros é menos penoso do que aprender com
a própria.
José Saramago

O engajado.

O Socialismo não produziu socialistas.
José Saramago

A relatividade da física.

Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória.
José Saramago

Emocional.

Se tens um coração de ferro, bom proveito. o meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.
José Saramago

Sobre a tecnologia.

É ainda possível chorar sobre as páginas de um livro, mas não se pode derramar lágrimas sobre um disco rígido.
José Saramago

Comentário sobre os blogs.

Os sismógrafos não escolhem os terremotos, reagem aos que vão ocorrendo, e o blog é isso, um sismógrafo.
José Saramago

Encarar os problemas de frente.

A única maneira de liquidar o dragão é cortar-lhe a cabeça, aparar-lhe as unhas não serve de nada.
José Saramago

Escrever, qualquer um escreve.

Somos todos escritores, só que alguns escrevem e outros não.
José Saramago

Já sobre talento…

O talento ou acaso não escolhem, para manisfestar-se, nem dias nem lugares.
José Saramago

Vida intensa.

É preciso variar, se não tivermos cuidado a vida torna-se rapidamente previsível, monótona, uma seca.
José Saramago

Quem cala…

O silêncio ainda é o melhor aplauso.
José Saramago

Anúncios

Dicas Coletivas: Manual para quem pretende ler Saramago

Entrevista com o escritor portugues José Saramago que acaba de lançar seu novo, "A Viagem do Elefante", pela editora "Companhia das Letras.

Obviamente, isto está muito mais para um “sugestionário” que para um manual. A arte não respeita regras, mas aceita dicas.

Tratando-se de nosso único escritor de língua portuguesa que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura – não que isso garanta a alguém um lugar no Olimpo –, sempre é válida a reflexão, a ironia e tudo mais que vem de brinde nos livros deste gênio.

Por onde eu começo? O primeiro livro que li dele foi Ensaio Sobre a Cegueira, mas a alguém que pretenda começar a ler o autor português, eu não indicaria esta obra. Primeiro vou justificar o porquê, para depois sugerir outros títulos. Na minha concepção, Saramago tem dois tipos de obras, ou duas linhas de histórias: 1) Obras de reconstrução histórica, propondo uma releitura de episódios importantes da humanidade, como em suas polêmicas recontagens bíblicas; 2) Obras de temas especulativos, onde é proposta uma situação extrema e exposto o que aconteceria (Ficção científica?). Dito isto, afirmo que da primeira linha do autor, eu recomendaria que se começasse por Caim, a recontagem irônica de Saramago sobre o famoso personagem bíblico. Da segunda linha, eu recomendaria que se começasse por Intermitências da Morte, que pode ser resumido na primeira frase do livro: “No dia seguinte ninguém morreu”. Ensaio Sobre a Cegueira é um pouco mais pesado que estes dois que recomendei.

Vou conseguir ler um texto sem aspas, travessões e, quase, sem parágrafos? Fiquei tentado a responder com um clichê “que depende de cada uma”, mas realmente não é isso que penso. Sim, você consegue. No começo vai estranhar, digamos que no máximo por umas trinta páginas, porém depois se torna tão natural que, ao pegar livros de outros autores, parece que toda a sinalização gráfica é desnecessária. Contudo, isto nos leva a uma segunda pergunta, por que ele escreve desta forma? Lembro-me de ter visto em uma das entrevistas que Saramago concedeu ao Roda Vida, onde ele disse que numa conversa não se existem tantos parágrafos… Simplesmente se fala e no momento seguinte o interlocutor já retoma, e assim por diante. É incrível como ele realmente consegue aplicar isto ao texto. Quando se lê seus livros, sabe-se quem está falando o quê; mesmo a fala estando no meio do texto.

Por que eu deveria lê-lo? Esta é a hora do argumento final? Ok, produção. Eu poderia listar uma série de motivos, ele ter ganho o Nobel, a revolução estilística, entre outros. Mas sabe onde o Saramago me prende? No fato de ele ser um grande contador de histórias. Sempre que o leio, sinto-me perante um ser humano gigante, que guia as palavras para através da sensibilidade me fazer compreender um pouco mais da alma humana. Não é uma questão de ser um “fã cego”, pois eu confesso que já desisti de um livro dele – Todos os Nomes, para os curiosos -, porém é sim o sentimento de estar a ver e aprender algo de diferente. Existe ali algo a ser dito, e eu sei que preciso ler/ouvir.

Encerrando esta tentativa de oferecer alguma luz a quem pretende ler Saramago, preciso afirmar que tenho como meta pessoal, ler todos os livros deste autor. No entanto, embora eu seja um apaixonado pela “literatura saramaguiana”, penso que cada um deve buscar se encontrar nas palavras dele. Seja em Ensaio Sobre a Cegueira, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Intermitências da Morte, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Caim, Objecto Quase ou qualquer outro, sempre se pode fazer uma incursão por este universo.

Confira um pouquinho de sua produção:

A Biblioteca Nacional de Portugal disponibiliza trechos de alguns de seus manuscritos. Acesse.

Leia aqui, o último artigo assinado por Saramago para o periódico espanhol El País.

No twitter, encontramos o livro “As Intermitências da Morte”. Baixe aqui.

Assista trechos de documentários e entrevista com José Saramago

E você, que dicas daria a alguém que pretende ler Saramago? E se ainda não leu, quais as suas expectativas?

Manuscritos de Notícias: Saramago ganhava Nobel há 15 anos atras

josesaramago_2010_f_001

Há 15 anos, em 8 de outubro de 1998, o escritor português José Saramago ganhava o prêmio Nobel de Literatura, tornando-se assim o primeiro autor de língua portuguesa a conquistar tal distinção.

Aos 25 anos, publicou o primeiro romance, Terra do pecado (1947). Depois, Saramago apresentou ao seu editor o livro Claraboia que, após ser rejeitado, permaneceu inédito até 2011.

Saramago persistiu na literatura e, 19 anos depois, trocou a prosa pela poesia, lançando Os Poemas Possíveis. Num espaço de cinco anos, publica, sem alarde, mais dois livros de poesia: Provavelmente alegria(1970) e O ano de 1993 (1975).

Três décadas depois de publicar o primeiro romance, Saramago retornou ao mundo da prosa ficcional comManual de pintura e caligrafia. Em 1980, publicou Levantado do chão, livro no qual o autor retrata a vida de privações da população pobre do Alentejo e foi considerada a obra que definiu seu estilo.

Em 1982, lançou Memorial do convento, livro que conquista definitivamente a atenção de leitores e críticos. Nele, Saramago misturou fatos reais com personagens inventados: o rei D. João V e Bartolomeu de Gusmão, com a misteriosa Blimunda e o operário Baltazar, por exemplo.

Entre os anos 1980 e começo da década seguinte, o autor lançou mais quatro romances que remetem a fatos da realidade material, problematizando a interpretação da “história” oficial: O ano da morte de Ricardo Reis (1984), sobre as andanças do heterónimo de Fernando Pessoa por Lisboa; A jangada de pedra (1986), em que se questiona o papel Ibérico na então Comunidade Europeia; História do cerco de Lisboa (1989), em que um revisor é tentado a introduzir um “não” no texto histórico que corrige, mudando-lhe o sentido; e O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), quando Saramago reescreve o livro sagrado sob a óptica de um Cristo que não é Deus e se revolta contra o seu destino, questionando o lugar de Deus, do cristianismo, do sofrimento e da morte.

Nos anos seguintes, entre 1995 e 2005, Saramago publicou mais seis romances, dando início a uma nova fase em que os enredos não se desenrolam mais em locais ou épocas determinados e personagens dos anais da história se ausentam: Ensaio sobre a cegueira (1995); Todos os nomes (1997); A caverna (2001); O homem duplicado (2002); Ensaio sobre a lucidez (2004); e As intermitências da morte (2005).

Confira a sinopse de alguns livros de Saramago:

capa_claraboia

Claraboia
(Editora Companhia das Letras)

Primavera de 1952. Um prédio de seis apartamentos numa rua modesta de Lisboa é o cenário principal das histórias simultâneas que compõem este romance. Dramas cotidianos de moradores como Lídia, uma bela mulher sustentada pelo amante misterioso, e Abel, um jovem outsider à procura de um sentido para a vida, se contrapõem ao árduo cotidiano dos outros moradores. As narrativas paralelas do livro são organizadas segundo as divisões internas do prédio, do térreo ao segundo andar.

capa_viagem_elefante

A viagem do elefante
(Editora Companhia das Letras)

A viagem do elefante é uma ideia que Saramago elaborava desde que, numa viagem a Salzburgo, na Áustria, entrou por acaso num restaurante chamado ‘O Elefante’. A narrativa se baseia na viagem de um elefante chamado Salomão, que no século XVI cruzou metade da Europa, de Lisboa a Viena, por extravagâncias de um rei e um arquiduque. Dom João III, rei de Portugal e Algarves, casado com dona Catarina d’Áustria, resolveu oferecer ao arquiduque austríaco Maximiliano II, genro do imperador Carlos V, nada menos que um elefante. Esse fato histórico é o ponto de partida para José Saramago criar uma ficção em que se encontram pelos caminhos da Europa personagens reais de sangue azul, chefes de exército que quase vão às vias de fato e padres que querem exorcizar Salomão ou lhe pedir um milagre.

capa_intermitencias_morte

As intermitências da morte
(Editora Companhia das Letras)

“Não há nada no mundo mais nu que um esqueleto”, escreve José Saramago diante da representação tradicional da morte. Só mesmo um grande romancista para desnudar ainda mais a terrível figura.Apesar da fatalidade, a morte também tem seus caprichos. E foi nela que o primeiro escritor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel da Literatura buscou o material para seu novo romance, As intermitências da morte. Cansada de ser detestada pela humanidade, a ossuda resolve suspender suas atividades. De repente, num certo país fabuloso, as pessoas simplesmente param de morrer. E o que no início provoca um verdadeiro clamor patriótico logo se revela um grave problema.Idosos e doentes agonizam em seus leitos sem poder “passar desta para melhor”. Os empresários do serviço funerário se vêem “brutalmente desprovidos da sua matéria-prima”. Hospitais e asilos geriátricos enfrentam uma superlotação crônica, que não pára de aumentar. O negócio das companhias de seguros entra em crise. O primeiro-ministro não sabe o que fazer, enquanto o cardeal se desconsola, porque “sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja”.Um por um, ficam expostos os vínculos que ligam o Estado, as religiões e o cotidiano à mortalidade comum de todos os cidadãos. Mas, na sua intermitência, a morte pode a qualquer momento retomar os afazeres de sempre. Então, o que vai ser da nação já habituada ao caos da vida eterna?Ao fim e ao cabo, a própria morte é o personagem principal desta “ainda que certa, inverídica história sobre as intermitências da morte”. É o que basta para Saramago, misturando o bom humor e a amargura, tratar da vida e da condição humana.

capa_homem_duplicado

O homem duplicado
(Editora Companhia das Letras)

O professor de história Tertuliano Máximo Afonso descobre, certo dia, que é um homem duplicado. Ao assistir a um vídeo, ele se reconhece em outro corpo, idêntico ao dele próprio: um dos atores do filme é seu sósia. Os desdobramentos dessa história são imprevisíveis. Mas o novo romance de José Saramago, esclareça-se logo, não tem nada a ver com clonagem ou outras experiências de laboratório. O que está em jogo é a perda de identidade numa sociedade que cultiva a individualidade e, paradoxalmente, estabelece padrões estreitos de conduta e de aparência. Os romances recentes do escritor português retratam uma época de transformações que, para boa parte da humanidade, resultam mais em perdas que em ganhos. Em Ensaio sobre a cegueira, os personagens perdem a vista, sinal de um tempo em que todos parecem estar cegos. Em A caverna, artesãos perdem o emprego, incapazes de sobreviver à sociedade de consumo. Em O homem duplicado, José Saramago constrói uma ficção extraordinária, apoiada numa questão extremamente atual e inquietante: a perda de identidade no mundo globalizado.

capa_caim_romance

Caim
(Editora Companhia das Letras)

Se, em O Evangelho segundo Jesus Cristo, José Saramago nos deu sua visão do Novo Testamento, neste Caim ele se volta aos primeiros livros da Bíblia, do Éden ao dilúvio, imprimindo ao Antigo Testamento a música e o humor refinado que marcam sua obra. Num itinerário heterodoxo, Saramago percorre cidades decadentes e estábulos, palácios de tiranos e campos de batalha, conforme o leitor acompanha uma guerra secular, e de certo modo involuntária, entre criador e criatura. No trajeto, o leitor revisitará episódios bíblicos conhecidos, mas sob uma perspectiva inteiramente diferente.Para atravessar esse caminho árido, um deus às turras com a própria administração colocará Caim, assassino do irmão Abel e primogênito de Adão e Eva, num altivo jegue, e caberá à dupla encontrar o rumo entre as armadilhas do tempo que insistem em atraí-los. A Caim, que leva a marca do senhor na testa e portanto está protegido das iniquidades do homem, resta aceitar o destino amargo e compactuar com o criador, a quem não reserva o melhor dos julgamentos. Tal como o diabo de O Evangelho, o deus que o leitor encontra aqui não é o habitual dos sermões: ao reinventar o Antigo Testamento, Saramago recria também seus principais protagonistas, dando a eles uma roupagem ao mesmo tempo complexa e irônica, cujo tom de farsa da narrativa só faz por acentuar.A volta aos temas religiosos serve, também, para destacar o que há de moderno e surpreendente na prosa de Saramago: aqui, a capacidade de tornar nova uma história que conhecemos de cabo a rabo, revelando com mordacidade o que se esconde nas frestas dessas antigas lendas. Munido de ferina veia humorística, Saramago narra uma estranha guerra entre o homem e o senhor. Mais que isso, investiga a fundo as possibilidades narrativas da Bíblia, demonstrando novamente que, ao recontar o mito e confrontar a tradição, o bom autor volta à superfície com uma história tão atual e relevante quanto se pode ser.

Minha Estante de Citações: 31/10/2013

“Escrever é traduzir, mesmo quando estivermos a utilizar a nossa própria língua.
Transportamos o que vemos e o que sentimos para um código convencional de signos, a escrita e deixamos às circunstâncias e aos acasos da comunicação a responsabilidade de fazer chegar à inteligência do leitor, não tanto a integridade da experiência que nos propusemos transmitir, mas um sombra ao menos, do que no fundo do nosso espírito sabemos bem ser intraduzível, por exemplo, o deslumbramento de uma descoberta, esse instante fugas de silêncio anterior à palavra que vai ficar na memória como o rasto de um sonho que o tempo não apagará por completo”.
– José Saramago.
Autores e Livros

Entrevistas, resenhas e afins

blogdabn

Blog oficial da Fundação Biblioteca Nacional - entidade governamental

%d blogueiros gostam disto: